terça-feira, 24 de novembro de 2015

Sobre "Macaquinhos" e a relação entre arte e ânus

Parece que a controversa performance "Macaquinhos",  já tá exercendo seu propósito artístico, no sentido que tem feito o público discutir o assunto  - a arte contemporânea, sob seu viés mais marcante, questiona mais do que responde. Partindo disso, uma obra apresenta uma realidade, ainda que uma realidade inventada, aberta a interpretações diversas, e é o proprio público que irá responder -- ou, muitas vezes, se desdobra em mais questionamentos ainda, >> refletindo << a respeito do tema.
Já em relação à performance "Macaquinhos",  fruto da moralismo no qual estou inserida, ou ausência de empatia mesmo.

Confesso que não me sinto mto impelida a assistir, mas fiquei pensando em como o corpo humano ainda é tabu. Mesmo já tendo sido banalizado, santificado e sepultado; mesmo ja tratado e retratado como mercadoria; já meio século passado de Andy Warhol e suas Marilyn Monroes estampadas em série ao lado de enlatados industriais - tudo em cores deliciosamente atraentes. É curioso como a erotização dos órgãos os tornam alvo de censura e  'linchamento' -   vide os mamilos da Karina Buhr e as mulheres que não mais devem amamentar em público. Mas, afinal, os seios não são feitos pra isso? O apelo sexual a eles atribuídos é que foi instituído.

Aliás, a própria visão do sexo como obra do demo foi instituída, abrindo um caminho devastador pra boa parte das doenças psico-emocionais do homem contemporâneo -- Há uns dias, em um doc sobre karma e sexualidade, vi o palestrante  dizer como a propria vestimenta é repressora, a partir do modo como foi imposta (pelos europeus) para tapar as partes íntimas, encarando-as como algo pecaminoso, feio. Pecado?? Em tempos de funk proibidão e de peitos que se parecem bundas nas propagandas de cerveja, espanta o moralismo estar tão enraizado entre nós. É incoerente, díspare, insano.

O corpo, por si só, é nada além de um amontoado de átomos. Mas demorou para poder ser visto e estudado como tal. O filósofo Paulo Ghiraldelli  pontua que os estudos de anatomia só vieram depois de Descartes "Abrir o corpo de um defunto para estudá-lo ainda era proibido pela Igreja Católica, uma religião que cansou de nos dizer que deveríamos cuidar da alma mas que, por um materialismo extremo, sempre se preocupou com o corpo. (...) A primeira Guerra Mundial tornou a anatomia e a fisiologia da abertura uma prática de todos. Só o pornô ginecológico fechou o uma era."

E por que o ânus ainda é tão polêmico? Por que mais da metade dos homens nunca foi ao urologista? Por que boa parte destes mesmos homens são obcecados pelo sexo anal? Ghiraldelli cita Hans Carossa , apontando a curiosidade que homem tem por orifícios: "O homem é a única criatura da terra que tem vontade de olhar para o interior de outra’. (...) Trata-se do ser que tem uma epistemologia inspetora, violenta, que está na criança que quebra um brinquedo para ver o que há dentro." Mas como, por que essa pulsão?

Embora "Macaquinnhos" possa levantar sem responder todas essas perguntas; quando li sobre a performance, me ocorreu a atual cena virtual, onde a vida privada vem, cada vez mais, se confundido com a vida pública. Intermediadas pelas mídias socias, de um lado da tela do smartphone temos a superexposição da intimidade do indivíduo (vídeos de seu cotidiano, nudes, selfies pós-sexo, etc) . Do outro, a obsessão pela intimidade alheia (seguidores, voyeurismo, stalking, etc etc). É um fuçando no cu do outro.