domingo, 15 de setembro de 2013

"Estamira - beira do mundo"

Contemplação, catarse, reflexão e refluxo: 70 minutos permeados pela dialética infinda entre arte e vida.

O medo, a morte, a maestria travestida em trapos. Sacos, sacolas; sonhos embalados em tempos sórdidos, inóspitos; onde o vazio preenche a sala. E preenche a cena, na cadeira inabitada que denuncia a ausência - o desconhecido íntimo, ínfimo descuido que abrigaria o destino.

A carne, o sangue, o laço etéreo de quem vive e não vê. Na espera estéril por quem voa e não volta. – Entre o que se foi e o que se é, quiçá a quântica daria conta; por transcender Descartes e sua lógica confortante.

Razão? Sanidade?
Com quantos e quais dedos se mede a lucidez; na insensatez cósmica, quase absurda, da existência humana?

No subúrbio da via-láctea estamos todos flutuando a esmo. Na beira do mundo, produzimos sofismas relativos – sons que não se propagariam no vácuo. Acuado pela incerteza, o homem,há tempos, imprime no barro, na rocha ou no mármore, sua passagem pelo mundo. Pela pós-modernidade, faz do lixo industrial a matéria-prima para uma grande e equivocada Land Art , figurando sua permanência na Terra.

Em meio ao caos, na era onde a sustentabilidade é sonho, o ar em brisa transpõe a máquina, nos lembrando da essência cíclica do mundo. Somente o vento poderia traduzir o pensamento dessa profetisa; indiferente ao chorume do chão, justamente por saber voar. Alvo fácil na mira de padrões emoldurados, ela mira o que não se toca e nos faz perceber que não existem limites na experiência – divina – da vida.

Sim, somos o absurdo. O ‘milagre ambulante’; enclausurado, tantas vezes, em embalagens herméticas, sintéticas, inventadas. No rompimento de barreiras instituídas, a liberdade pode soar, então, como uma ameaça -- pondo em xeque a segurança garantida pela padronização, quase industrial, da existência.

Ela vê e grita. Tantos tacham, outros riem. Mas, qual lixo que não morre no cesto, ela continua seu fado; ainda que oculta aos olhos da ordem, supostamente, estabelecida.

"Estamira - beira do mundo"
com Dani Barros, direção: Beatriz Sayad.
(foto: Helton Pérez)